Dark Souls e a dolorosa arte de se adaptar
Retomando a concepção dos artigos para a newsletter após um período bastante turbulento, marcado por muitas atividades e, logicamente, por um momento de descanso, sim, tentei interromper tudo aquilo que se relacionava ao que eu costumava fazer, para me dedicar, ainda que por algum tempo, a outros afazeres, sobretudo à experiência de algo mais relaxante. Ao retornar, deparei-me com uma série de pautas que pretendo publicar, além de alguns artigos já escritos e outros ainda por finalizar. Ainda assim, resolvi sair um pouco do escopo e trabalhar com uma narrativa que, durante muito tempo, desejei escrever a partir das minhas experiências ao jogar, particularmente ao finalizar Dark Souls, obra aclamada no universo dos jogos digitais. Diga-se, essa vontade surgiu praticamente no mesmo instante em que me vi adentrando aquele universo melancólico, pouco depois de seu lançamento, ali entre 2011 e 2012. Foi, porém, no final de 2025, ao me entregar novamente a essa fantasia sombria e retornar aos reinos de Lordran por meio da remasterização do jogo, que pude finalmente ceder à loucura e tentar, de certo modo, escrever um pouco sobre alguns pensamentos que surgiram em meio a esse ambiente terrivelmente familiar. Mas será que podemos aprender algo com um jogo? Podemos, e talvez devamos, aprender com tudo. Afinal, nossa espécie evoluiu por sua capacidade de adaptação, isto é, por analisar o meio e aprimorar suas habilidades. Então, sim, podemos aprender com um jogo.
Que fique claro que minha pretensão com este artigo não é, de modo algum, oferecer uma análise profunda sobre o título em questão, muito menos uma revisão ou mesmo uma crítica, mas construir uma narrativa cujo objetivo seja refletir e, às vezes, analisar, sob uma ótica mais aprofundada, e talvez até elucidar, as experiências que vivi ao longo do jogo, sempre buscando relacioná-las a situações do cotidiano. Logo, o que irei compartilhar será puramente voltado àquilo que a jornada evocou em mim, bem como à forma pela qual me peguei refletindo sobre certas questões ao longo dos dias. Inclusive, em alguns momentos, trazendo à tona resquícios de pensamentos que permaneceram desde a minha primeira aventura neste reino fantástico, há cerca de 14 anos. Preparado para se entregar ao umbral que o conduzirá a uma jornada de autoconhecimento entre sombras e o desespero da queda iminente do herói? Então, ‘prepare-se para morrer’.
Prepare to Die ou “Prepara-se para morrer”

Talvez soe um tanto perturbador iniciar este relato com uma frase assim, mas o slogan “prepare-se para morrer”, da obra em questão, constitui um bom ponto de partida para compreendermos a razão deste texto e, por que não, um dos motivos de tamanha devoção do público a algo que, em certa medida, foi concebido para ser altamente punitivo. Dito isso, embora esse slogan carregue um tom apreensivo, ele também exerce um fascínio imediato, muitas vezes atraindo os desavisados que desejam encontrar alguma forma de glória no âmago dessa jornada. Ao longo do percurso, porém, percebemos que essa frase adquire um duplo significado, pois a suposta glória de Lordran revela-se, ao fim, apenas uma ilusão. Em um primeiro momento, como veremos talvez da pior forma possível, o personagem morrerá várias e várias vezes, incontáveis vezes, e está tudo bem, pois reside aí uma das maiores forças do jogo: aprender com os próprios erros. Em um segundo momento, já próximo ao final da experiência, a frase assume outro peso: quem “morre” é você, o jogador, evidentemente não em sentido literal, mas na constatação de que o retorno ao mundo comum já não se dá da mesma maneira. Trata-se de uma passagem simbólica, como se algo em você se transformasse, provocando um misto de alívio e vazio. É como se entregar a uma jornada que, por si só, se transfigura em uma experiência marcante, capaz de fazer com que você sinta que algo mudou – ainda estou tentando entender o que isso exatamente significa -, numa travessia que remete ao monomito de Campbell.
No início da jornada, somos convidados a contemplar um mundo que outrora foi esplêndido, com paisagens fantásticas, reinos poderosos, figuras míticas e heróis gloriosos, mas que hoje não passa de uma sombra distante dessa descrição: um mundo cujo brilho se perdeu em uma decadência putrefata, capaz de afetar todos aqueles que ali buscam algum tipo de aventura ou, talvez, alguma espécie de redenção. Que fique claro que não existe felicidade aqui, já que tudo se parece com o abandono definitivo da esperança e com o esforço de permanecer assim, apegando-se apenas àquilo que resta, algo que ora se apresenta profundamente melancólico, ora vazio, em uma sintonia perversa que perturba muito mais do que os gritos dos desesperados em busca de salvação. Há, por vezes, algo de demoníaco nesse ambiente, algo que brota literalmente de todos os cantos, como uma força empenhada em arrastá-lo para um purgatório capaz de aprisioná-lo em uma agonia incessante. É como se atravessássemos o inferno junto a Dante e Virgílio. Não há como escapar. Não se está vivo, tampouco se está morto. E, perante essas ruínas, pouco a pouco, aprendemos que tudo ali deseja arrastá-lo para esse lugar, não fisicamente, pois você já está nele, mas em essência, por meio de um desgaste espiritual lento, quase imperceptível, que corrói aquilo que houver de mais próximo, para você, do que significa ser humano; humanidade, talvez, chame de alma, se quiser. É por essa razão que absolutamente tudo quer que você perca a sua humanidade, e conseguirá, já que não há como evitar esse desfecho. Lembre-se: “prepare-se para morrer”. Desse modo, saiba que sua força de vontade será testada a cada instante no jogo. E, como dito, seu personagem vai ser arrastado para a destruição, repito aos desavisados, o jogo foi pensado para ser assim, e está tudo bem, pois, quanto antes você compreender que cada encontro com a destruição terá de ser encarado como o reencontro com uma velha amiga, ali presente para ensinar que o mundo é deveras cruel, mais cedo perceberá que apenas aqueles capazes de compreender essa sutileza conseguirão avançar rumo a um horizonte que se torna cada vez mais familiar a cada detalhe percebido na tentativa de encontrar algum raio de sentido ali.
À medida que eu avançava no jogo, pude perceber certas sutilezas ao meu redor, quase sempre evocando comparações com o meu cotidiano, e, após várias interações com a obra, afirmo que aquilo que mais se destaca é a sensação funesta que atravessa toda a jornada, obrigando-o a mudar seu padrão de pensamento para se adaptar àquela experiência. Dark Souls leva a máxima “o diabo está nos detalhes” ao limite de toda a jornada que percorremos, uma vez que até mesmo a coisa mais inofensiva tentará sugar o que resta da sua humanidade para lançá-lo no abismo, e, se você permitir, conseguirá e ficará por lá. Mas o que de fato é perigoso é essa maldita sensação de desolação que vai se apossando do nosso âmago pouco a pouco, como se, à medida que avançamos, fôssemos nos tornando parte daquele ambiente, de maneira quase natural, e, sem isso, talvez não fosse possível continuar. Essa sensação é representada com muita força pela frase de Friedrich Nietzsche: “Quando você olha muito tempo para um abismo, o abismo olha para você”. Logo, você se torna tão vazio quanto aquilo que o cerca. E o mais aterrador é saber que você está, na verdade, e não importa o que faça, perdendo a humanidade ao longo do processo: avança, vence, se é que aqui ainda faz sentido falar em vitória, mas a que custo? E, aproveitando o autor supracitado, temos também uma forte relação com a frase: “Aquele que luta contra monstros deve certificar-se de que, no processo, não se torne um monstro”. Então, eu respondo ao questionamento anterior: ao custo da sua essência. A cada passo dado, em cada sala visitada, em cada canto, em cada masmorra, tumba, castelo, descampado ou na mais profunda escuridão, você passa a enxergar o mundo com outro olhar, e precisa fazer isso, precisa se adaptar àquele ambiente, que se torna cada vez mais melancólico, levando-o a uma loucura silenciosa que o faz entender que é necessário estar sempre à espera de algo que surja para atacar. Desse modo, pouco a pouco, tornamo-nos reativos a tudo.
A caverna que tememos entrar

Talvez a frase “Na caverna que você tem medo de entrar está o tesouro que você procura”, atribuída a Joseph Campbell, seja uma das melhores portas de entrada para compreendermos o que Dark Souls representa enquanto experiência simbólica. Afinal, Lordran é, em muitos sentidos, a alegoria de uma caverna que hesitamos em atravessar, tal como tantas passagens da própria vida, como um espaço escuro, hostil, silencioso, profundamente marcado por ruínas, monstros e sinais de uma glória que já não existe. Porém, é diante de um ambiente tão pestilento que a luz se mostra necessária.
A meu ver, Dark Souls opera com uma lógica sombria que também se deixa perceber no nosso cotidiano, pois, em sua estrutura, temos um mundo que, como citei anteriormente, jaz à sombra de um passado outrora formidável, mas que agora luta para continuar existindo e, a cada alma sugada, alimenta a própria tocha, essa chama que, pouco a pouco, vai se apagando e passa a exigir mais e mais almas, nutrindo-se, de certo modo, da esperança dos desavisados que ali buscam alguma experiência positiva. Nesse ponto, Lordran se aproxima bastante do nosso mundo: também vivemos cercados por estruturas visíveis e invisíveis que, mesmo desgastadas, exigem movimento constante, observação, produtividade, adaptação, sacrifício e, por vezes, uma entrega incondicional que vai arrastando partes daquilo que somos e nos faz sucumbir, muitas vezes, a esse ritmo macabro, como se a permanência de certas engrenagens dependesse da exaustão daqueles que tentam sobreviver dentro delas. É preciso observar, entretanto, que toda aquela escuridão que nos envolve nos faz refletir sobre a solidão de estar diante de uma força imparável que quer, a todo custo, nos transformar em marionetes e nos prender em suas entranhas num processo doloroso e faminto que, ao menor descuido, finca os dentes em nossa carne. Talvez o jogo encarne, de maneira brutal, a velha ideia de que não sobrevive necessariamente o mais forte, tampouco o mais inteligente, mas aquele que melhor se adapta às mudanças, uma máxima que carrega muitos significados.
De forma quase antológica, o mais curioso é que, observando bem, há ao menos três movimentos nesse processo. O primeiro é que, se não reconhecermos onde estamos, seremos facilmente sugados pela maldade que nos cerca, tal como ocorre na vida e, no jogo, de maneira ainda mais direta: um lugar em que tudo parece disposto a nos atrair, como o canto suave de uma sereia que conduz o desavisado para o fundo. Entenda o jogo, entenda as regras, saiba onde está pisando, em todos os sentidos, pois isso serve para tudo, inclusive para a nossa vida. O segundo é que precisamos reconhecer a nossa própria escuridão na medida em que ela vai nos engolindo de dentro para fora, pois, se não a reconhecermos, seremos devorados por nós mesmos e nos tornaremos parte daquele ambiente, tão vazios quanto qualquer um que jaz ali, nem vivo nem morto. Ou seja, como diz Sun Tzu: “Se você conhece a si mesmo e conhece o seu inimigo, não precisará temer o resultado de cem batalhas”. O terceiro é que precisamos nos apegar ao que está acontecendo em um estado de prontidão quase hercúlea, uma vez que, se não notarmos o quanto antes que o contexto altera completamente a nossa forma de agir diante daquele destino cruel, seremos levados a acreditar que já temos o suficiente para avançar. Então, como diante de um ceifeiro em busca da próxima vítima, por ego ou por vaidade, quando menos esperamos, escutamos um assovio, e isso significa que a passagem já foi feita, ou seja, estamos retornando pela milésima vez a uma fogueira. Você morreu.
Aqui, o âmago da questão está em ter clareza absoluta de que nem tudo dá certo, mesmo quando parece fazer sentido, e de que, por mais que você pense conhecer aquele mundo, esse suposto conhecimento pode se tornar perigoso à medida que avança. Há nisso algo profundamente recorrente no nosso cotidiano: o estado de enlevo diante da própria experiência costuma nos fazer acreditar que já possuímos os recursos necessários para o momento vindouro, como se a experiência, por si só, fosse garantia de sucesso, e o jogo nos mostra, dolorosamente e, por que não, de forma genial, que estamos completamente errados. Sim, esse arroubo é uma armadilha, pois passamos a acreditar cegamente que, por termos chegado até ali, isto é, por termos atravessado inúmeros obstáculos, estamos prontos, dotados de alguma sabedoria máxima, e então, como num passe de mágica, escutamos pela milésima vez o assobio que nos conduz ao túmulo: mais uma vez fomos derrotados, mais uma vez morremos. E, à medida que isso se repetia, fui percebendo quão efêmero tudo aquilo era, e que bom que era assim. Eu era inflexível em um mundo moldado pelo fracasso, pela ganância e por uma recusa obstinada em morrer. Para aquele ambiente, eu era o combustível que mantinha tudo em movimento, e não podia me dar ao luxo de me tornar a próxima lenha nessa fogueira.
Nesse sentido, se bem observadas, essas percepções conduzem essa experiência àquilo que considero uma das expressões mais distintas da natureza: a capacidade de adaptação. Querendo ou não, ao adentrarmos cada vez mais fundo nesse ambiente amaldiçoado, passamos a esperar, a qualquer instante, por algo que permanece à espreita. Vemos olhos vermelhos e demoníacos em cada canto da escuridão, dentes cerrados e famintos, vozes ecoando por todos os lados; talvez seja a nossa imaginação, muitas vezes é, em outras nem tanto, mas ainda assim esperamos, sempre em um tom taciturno, talvez o mais benevolente que nos seja possível assumir. Sem perceber, eu havia mudado, ou melhor, havia me adaptado àquele ambiente, pois era preciso. Era isso que o jogo tentava, a todo custo, me ensinar: eu precisava me adaptar àquilo, embora não da forma habitual que conhecemos. Aqui, nada é simples, tudo exige ponderação; a cada ambiente desconfortavelmente seguro, precisei avaliar o que estava por vir, o que nos conduz aos múltiplos caminhos de um design primorosamente brilhante.
Diferentes caminhos

Sempre que eu me via em uma situação que exigia prudência, e isso significava, quase sempre, que eu já havia morrido várias vezes em um determinado ponto do jogo, precisava repensar o que estava fazendo, o que me levava à questão anterior: eu precisava me adaptar, reconsiderando meus atos para construir um novo plano, pois o atual não estava funcionando e, afinal, como esperar resultados diferentes fazendo sempre o mesmo? Veja a sutileza da adaptação aqui, representada muitas vezes por uma visão que nos leva a crer que, se seguirmos cegamente por um caminho no qual acreditamos que uma ou outra habilidade, ainda que fortalecida várias vezes, irá nos conduzir a alguma ilusão de vitória, logo aprendemos que não é bem assim. Aos poucos, emerge então a percepção de que a insistência cega não é sinônimo de progresso.
Partindo dessa premissa, já podemos delimitar o domínio da escolha como uma das máximas do jogo, e, se formos atentos, perceberemos desde cedo que existem múltiplas formas de lidar com um problema e que, tal como na vida, às vezes, de modo recorrente, é preciso aceitar que ainda não estamos preparados para determinado caminho. Se avançar sem pensar, vai morrer; se avançar com muito ego, também vai morrer; se acreditar que está preparado, quase vai morrer; e, se não fizer nada, isso também é uma escolha, e, dependendo do lugar, algo virá te buscar e você, adivinha, vai morrer. Ou você desiste aqui, ou muda a própria mentalidade. Afinal, se a banalidade vencer a razão, tentaremos de toda forma avançar à força, aproximando-nos do desfecho mais previsível e profano: a desistência.
Muitos abandonam o jogo no momento em que percebem que, diferentemente de outras obras, avançar não é algo simples. Como proceder, então? Surgem, nesse instante, frases como: “Mas eu treinei e treinei, melhorei as minhas habilidades, estou mais forte, estou mais rápido, estou mais sábio. Que desgraça de jogo!”. Pronto, com esse pensamento, você sucumbiu à escuridão e agora é um morto-vivo, mais uma vítima do jogo. Mas, se for sensato, perceberá que se trata, na verdade, de compreender a sutileza de um design que, na minha opinião, foi tecido para ser visto como um labirinto que vai ganhando sentido à medida que avançamos; e, tal como em um labirinto, precisamos de alguma estratégia para seguir, assim como Teseu. Se for às cegas, você ficará preso ali ou, pior, o Minotauro encontrará você.
Ainda no que se refere à adaptabilidade, é possível admitir que, à sua maneira, esta obra possui um valor importante para o nosso crescimento pessoal, já que a experiência nela vivida é profunda o bastante para nos fazer perceber que, assim como nessa travessia, a vida também exige de nós algo que muitas vezes ainda não temos. E, se seguirmos presos a planos já esgotados ou acreditando profundamente que aquilo de que dispomos é suficiente, mesmo diante de um contexto distinto, pereceremos, como tantas pessoas, profissionais e empresas. A experiência do jogo esbarra, assim, nas nossas dificuldades particulares de transformar o próprio pensamento diante das adversidades, o que resulta em agonia e, muitas vezes, no desfecho aqui relatado. Porém, se superarmos esse obstáculo e passarmos a analisar conscientemente cada situação, ponderando com cautela as variáveis do contexto, sem perder o bom senso, sem nos mantermos eternamente parados e agindo de acordo com aquilo que a circunstância exige, seremos agraciados com a sabedoria de compreender que, talvez, naquele momento, o mais importante seja reconhecer aquilo que está diante de nós.
A postura mais adequada, aqui, talvez seja compreender que a obra, à sua maneira, nos possibilita evocar a nossa humanidade como condição preliminar de existência, como base a partir da qual se produz uma espécie de vitória simbólica perante o abismo, entendida não como triunfo absoluto diante do caos, mas como a capacidade de atravessar essa experiência sem perder a sanidade. E, como um raio que ilumina a escuridão, abracei o conceito de adaptação quando relacionei essa experiência à formulação atribuída a Alvin Toffler sobre a sobrevivência em um mundo atravessado por rápidas mudanças: aprender, desaprender e reaprender.
Essas dimensões se tornam perfeitamente observáveis ao longo da jornada. Primeiro, o aprender pode ser visto quando percebemos que cada ambiente exige atenção aos detalhes, como se o jogo ensinasse, a cada morte, que nada ali pode ser tomado como banal. Segundo, o desaprender se torna evidente quando somos obrigados a abandonar a ilusão de que força bruta, ego elevado, vaidade, repetição cega ou confiança excessiva bastam para avançar, rompendo com hábitos que, em outros contextos, talvez ainda funcionassem. Por último, o reaprender surge quando passamos a reorganizar a própria forma de agir, explorando novas rotas, reinterpretando perigos e reconhecendo o valor da exploração, da espera, da observação e da estratégia.
A armadura também pode ser um peso

Percebi, então, que tudo ali era um grande quebra-cabeça que, aos poucos, começava a fazer sentido. E, quando a exploração chegava ao seu limite e eu já não tinha resposta sobre como avançar, via-me lutando com as sombras apenas para compreender o que ainda me escapava em cada confronto: por mais cruel que aquele ambiente fosse, ele ainda deixava pequenas pistas, migalhas de pão que me conduziam à fenda na armadura, como se cada elemento daquele mundo carregasse um propósito próprio, nefasto, eu sei, mas dotado de sentido, assim como a motivação daquelas criaturas bizarras, o seu padrão de movimento, as suas fraquezas e o modo como eu poderia superá-las.
Repito, nem sempre era uma questão de força, ainda que, pouco a pouco, eu sentisse o meu personagem se tornar mais forte. Porém, muitas vezes, o jogo me pregava uma peça, pois a aparente vantagem que eu tinha diante de certa situação era, na verdade, o meu ponto fraco. Ora, como isso era possível? Por vezes, a situação exigia agilidade máxima para lidar com os seus desdobramentos, mas, cegamente, talvez por acreditar que, naquele momento, a minha força bastava, eu tentava prosseguir e, adivinhe, era cruelmente eliminado. Como abandonar aquilo que você acredita ser o seu ponto mais forte? Na prática, isso significava, muitas vezes, ter que retirar todo o meu equipamento pesado, e, diga-se, levei muito tempo para consegui-lo, como a minha armadura e outros adornos, ficando exposto e, consequentemente, mais vulnerável. Assim, se eu não tivesse a capacidade de observar o contexto e me desprender daquilo que até então tomava como força, iria perecer. Estava mais rápido, a situação exigia isso, porém, o jogo, assim como a vida, opera quase sempre orientado pelo caos. Ou seja, embora mais veloz, eu precisava ter cuidado redobrado, já que meu personagem estava exposto; logo, não podia me dar ao luxo de ser atingido, ou isso significaria, mais uma vez, a sua morte.
Percebe a sutileza dessa questão? Na vida, muitas vezes ocorre o mesmo: insistimos em carregar armaduras que um dia nos protegeram, como hábitos, certezas, cargos, títulos, métodos e formas de pensar ou agir que já fizeram sentido em outro momento, mas que, diante de um novo contexto, passam a nos tornar vulneráveis. A adaptação, nesse sentido, demanda uma espécie de desprendimento doloroso, já que nos força a reconhecer que aquilo que sustentava nossa confiança pode, em outra circunstância, ser exatamente o peso que nos impede de avançar.
E a morte vinha, vinha muito, prepare-se para morrer, lembra? Mas chega um ponto em que você se acostuma com esse ciclo de tentativa e erro. Talvez o mais significativo ao longo da jornada seja entender que, em determinados momentos, mesmo quando seus esforços parecem não ser suficientes, mesmo quando você lutou estrategicamente e foi por muito pouco que não conseguiu, é preciso ter consciência de que está próximo de superar aquele obstáculo. Bastava seguir em frente, sem perder a cabeça, analisando cada variável do ambiente. Agora, mesmo com a sabedoria adequada para a situação, mesmo tendo plena consciência do que eu precisava para superar o obstáculo e vencer aquele ambiente ou a mim mesmo, minhas dúvidas, minha hesitação, meu ego, ainda assim preciso te dizer que não era uma tarefa fácil, tal como a vida. Conhecer o ambiente, aqui, é parte do processo, o que, inclusive, para muitos, poderia ser visto como uma vantagem. Mas, se observarmos bem, trata-se de um requisito básico de sobrevivência perante o caos, ou seja, não é uma vantagem propriamente dita; você precisa ter isso, e ponto. Em diversas situações, a sabedoria consiste em ponderar exatamente sobre aquilo que você sabe. Aliás, como dito nos últimos parágrafos, às vezes, a sua maior aparente vantagem pode ser a sua ruína, e será preciso abrir mão dela, transformá-la ou, de algum modo, evoluir para avançar. E não pense que agora isso é o bastante. Mesmo sabendo o ponto fraco de muitas criaturas, elas não deixam de ser mais ferozes, mais assustadoras e mais perigosas; a ameaça ainda está lá, esperando por você, e dará tudo de si para destruí-lo. E por que você não faria o mesmo? Deve fazer, tem de fazer. Ou se entrega completamente, ou repetidamente irá perecer. Quantas vezes não vimos desfechos desfavoráveis ao longo da vida pelo motivo torpe de acreditarmos que aquilo de que dispúnhamos seria suficiente, quando, no fim, não foi?
A mudança vem de dentro para fora

Ao passo que tudo se encaminha para o fechamento da cortina, descemos cada vez mais rumo ao umbral da tumba onde o último monstro nos aguarda. Nesse percurso, um misto de tensão e alegria começa a se apossar do nosso âmago. Pouco a pouco, a descida revela o quanto você mudou. Para estar ali, foi preciso atravessar uma longa jornada, preparar-se, fazer o dever de casa, escolher os melhores equipamentos, peça por peça, revisar habilidades, adornos e estratégias, além de acumular poções e outros utensílios úteis para a batalha final. Ainda assim, permanece a plena consciência de que tudo é efêmero. Nem parece que você chegou tão longe. No entanto, justamente por ter avançado tanto, não pode se dar ao luxo de falhar agora. Essa percepção o conduz, inevitavelmente, ao confronto final; ao encontro daquele que tanto tememos ao longo da vida.
Sim, infelizmente, teremos que nos lançar ao fogo. Sei que esse é um processo complexo, e talvez por isso mesmo tendamos a evitar o confronto de todas as formas possíveis. Diferentemente de Dark Souls, onde tudo se resolve pela força do combate, na vida atravessamos diferentes graus de conflito. Alguns são mais simples de resolver, bastando um diálogo direto, conduzido com sinceridade entre as partes. Outros, porém, nos colocam diante de guerras empresariais, disputas de carreira, dilemas pessoais e inúmeros trade-offs, isto é, decisões em que escolher uma possibilidade implica abrir mão de outra. Escolhas e mais escolhas. E, por mais incômodo que pareça, não escolher também é uma forma de escolha; às vezes, muito pior. Mas todo esse contexto faz parte da vida, é inevitável. Por isso, estar preparado para as adversidades, vestir a armadura, escolher as melhores armas, analisar o terreno, compreender suas principais forças e fraquezas, aliás, as de seus adversários também, continuar evoluindo e compreender que o erro ou a falha, muitas vezes, representa um momento para analisar criticamente o que está ocorrendo, são movimentos que nos dão a capacidade de pensar como superar aquele monstro. Assim como em Dark Souls, o monstro sempre parece pior antes de o conhecermos. Às vezes, mesmo depois de conhecê-lo, ele continua perigoso. O que muda é a nossa capacidade de entender que, assim como outros obstáculos, aquele também pode ser superado, desde que saibamos observar as variáveis.
E, quando a cortina fecha, o monstro se cala e a última tocha se apaga, o show acabou. A sensação? Vazio e alívio. Você venceu, mas a que custo? Talvez a sua sanidade, mas será que foi só isso mesmo? Pense: após o desfecho de um conflito, de um confronto, de um desafio, de um obstáculo, o que de fato muda em você? Embora seja temerário fazer generalizações, quase sempre muitas forças atuam de forma distinta nesses processos, resultando naquilo que chamamos de experiência. Então, sim, você mudou, pelo menos deveria, aprendendo com tudo o que passou. O jogo terminou, a vida continua, e o próximo monstro está à espreita.
Essa linha de pensamento pode ser, por ora, melancólica, mas adianto que talvez o maior indício de uma aparente mudança após finalizar Dark Souls ocorra quando você decide iniciar uma nova jornada, uma nova aventura, em outro jogo, principalmente um que não seja um soulslike, e percebe que a sua forma de jogar mudou. Você estará acostumado com o terror de um ambiente que deseja aterrorizá-lo de todas as formas possíveis, e sabe disso; logo, aguarda ansiosamente pelos monstros. Talvez você já seja um. Então, desaponta-se ao perceber que o novo ambiente não é tão assustador assim, que parece mais linear, menos apreensivo, mais contido, menos desafiador, e acaba frustrado. O mais interessante é sentir falta daquele ambiente, por mais tenebroso que seja. Lembro que, após finalizar um curso particularmente difícil, um professor me disse que eu sentiria falta daquele ambiente, e só fui entender isso muito tempo depois. Talvez seja algo semelhante, como um chamado. Talvez não tenhamos saído inteiramente daquele lugar. Para aqueles que chegaram ao fim do jogo, permanecerá essa sensação por um longo período.
Espero, profundamente, que, se você chegou até aqui, não tenha se assustado com este relato, embora eu repita que se trata de uma experiência notavelmente tensa, que, para muitos, pode ser demais e, para outros, apenas um mundo de fantasia. Assim como Morpheus diz em Matrix: “Há uma diferença entre conhecer o caminho e trilhar o caminho”. E, se não for Dark Souls, acredito que qualquer outro jogo terá a capacidade de te fazer refletir. Não precisa, até porque é um momento lúdico, mas essa oportunidade estará ali mesmo assim. E, se for Dark Souls, ou outro soulslike, caso tenha a oportunidade de iniciar essa jornada, não hesite: será transformadora. E saiba que essa é a minha experiência; a sua pode ser diferente.


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