A corrida maluca?

“Vários pares de olhos coloridos surgem no escuro, sugerindo vigilância e expectativa — capa do artigo ‘A corrida maluca?’ no MenteMáquina.”

A situação tecnocultural vivida hoje nos oferece vários sinais de que estamos, de fato, adentrando territórios desconhecidos, o que torna oportuno discutir diferentes vertentes. Nessa miríade de possibilidades, gostaria de tratar brevemente de uma.
Você já teve aquela sensação de desconforto, talvez um vazio, talvez uma agonia silenciosa; uma perturbação excruciante que, por mais que tente, não sabe explicar, mas sente profundamente ao realizar uma atividade que deveria ser satisfatória? Estar com a família; escutar uma música; ler um livro; conversar com amigos; assistir a um filme, a um seriado; jogar; praticar um esporte; cantar; tocar um instrumento; observar a natureza… qualquer atividade que, em tese, deveria nos preencher. Parece cada vez mais distante o tempo em que o silêncio valia como sabedoria. E, ainda que esse fenômeno se torne cada vez mais comum, será que é normal ou deveria ser? Indo direto ao ponto: nem sempre.

Vivemos, a meu ver, uma transição que ainda está em curso; algo que não chegou, mas está vindo, como se ainda fosse “dar em alguma coisa”. Talvez seja apenas uma divagação, quem sabe não. Embora haja razões para discordar, estamos num período marcado por mudanças significativas na forma como vivemos, por exemplo, como nos comunicamos, aprendemos, trabalhamos, nos divertimos, enxergamos o mundo. Um período transformado diariamente por alterações no nosso estilo de vida, seja pela tecnologia, seja por seu impacto subjacente. O fato é que o mundo muda; sempre mudou, sempre esteve em ciclos que afetam nossa vida. Logo, o ser humano também muda; processo contínuo, adaptativo. E, nesse contexto singular, lidamos com inúmeros estímulos artificiais que nos fazem pensar, sentir e consumir conteúdos mais do que deveríamos, sobretudo em momentos hedônicos.

Sabe aquela sensação de vazio, de preocupação ou de instabilidade quando deveríamos nos entregar totalmente a um momento de pura satisfação pessoal, desacelerar a mente, cessar por instantes as preocupações, o trabalho, as batalhas? Mas por que sentimos esse vazio? É nítido observar que mais pessoas vivem esse fenômeno, que altera nossa capacidade de vivenciar algo em sua completude. O mundo moderno nos bombardeia com informações que moldam a vida; por isso entramos numa corrida maluca. Estamos sempre correndo, sempre buscando, sempre de olho, sempre em transição; em busca do coelho que está sempre atrasado, ditando a nossa existência.

O coelho atrasado como modo de vida

E por que isso é ruim? A busca pelo coelho, metáfora de Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll, remete à vida moderna, ou seja, sempre atrasada, sempre em falta, sempre no “quase”. A meu ver, esse dito coelho é a perfeita representação da nossa realidade, uma pressa de chegar que molda a existência, sem controle. Parece-me que também perdemos esse controle, perdemos a capacidade de refletir sobre escolhas genuínas, conscientes e, sem perceber, adotamos comportamentos “normais” que passam a compor a rotina: acordar antes das cinco, tomar banho gelado, “um livro por dia”, sim, há quem o faça, com métodos duvidosos, correr “x” quilômetros, assistir a podcasts em sequência, planejar cada minuto, e tantos outros métodos que poderíamos listar longamente.

A questão é: será que tudo isso faz sentido para você? Por mais inocentes, ou não, que sejam, são processos gerais que só fazem sentido como escolhas conscientes em momentos adequados e, assim como qualquer projeto, precisam ter início, meio e fim. Quando passamos a adotar, sem filtro, ações na vida, corremos o risco de perder a identidade; daí a sensação de vazio. Vazio, aqui, não por falta de conteúdo, não por falta de ação, não por falta de deveres; temos informação de sobra, temos ações de sobra; trata-se da ausência do que é realmente dirigido ao indivíduo, a você. Soma-se a isso a contemplação do outro, num mundo que nos diz que é normal “espiar”, é normal “olhar”, é normal “acompanhar” a todo momento, a qualquer custo. O smartphone virou janela para espiar; abre brechas para análises e comparações perigosas num mundo digital onde tudo parece perfeito, desde hábitos, comportamentos, conquistas e atitudes. Mas são verdadeiras? E, se forem, até que ponto estão impactando a vida alheia? A sua vida?

Assim, somos impelidos, para não dizer empurrados, a uma competição. Naquele final de sábado, em momento de relaxamento com a família, com amigos, ou na própria solitude, você se pega divagando sobre o que deveria estar fazendo, mesmo já fazendo algo. E, diga-se, muitas vezes, algo muito bom. Como se o que realiza fosse perda de tempo, de recursos, de criatividade. Um momento que vira agonia constante, quase ácida, muito incômoda; não dá em nada, e nem deveria, pois é produto de si mesmo.

Digo isso porque ainda sinto algo parecido e, ao observar o comportamento de várias pessoas, vejo o mesmo: “Por que estou perdendo tempo com este filme se eu deveria estar produzindo?”, “Quero terminar logo este almoço em família para aproveitar o resto do domingo e adiantar o trabalho”, “Que tédio; em vez de ler este livro recomendado por x, y ou z, eu deveria estar estudando, ouvindo um podcast, terminando um curso.” Palavras reais, de pessoas reais.

Não serei hipócrita. Já passei por isso diversas vezes. Em outros momentos, de fato precisei dedicar energia para alcançar objetivos que defini para a minha vida. Veja que eu defini, em plena consciência. Não foi fácil abrir mão de momentos importantes. O problema é que, sem perceber, tratei essa atitude como normal. Mesmo alcançando objetivos com esse “sacrifício”, eu recorria a ele como desculpa para sacrificar ainda mais as poucas oportunidades de convívio, de hobbies, de simplesmente não fazer nada; aos poucos, esse processo moldou meu comportamento.

Chegou a um ponto em que, mesmo sem um projeto urgente, com a vida equilibrada, eu sentia o vazio, uma agonia que me dizia para produzir sem parar, o que levou a sensações desagradáveis a momentos que deveriam trazer paz. Um Natal em família, a virada do ano à meia-noite, até pensamentos de trabalho num velório; e outras situações igualmente singulares, como uma conversa de domingo na casa da minha avó.

Perguntas que permanecem

Como lidar com o vazio nos momentos de relaxamento? Não há fórmulas prontas, nenhum algoritmo detalhado, nenhuma receita de sucesso, nem mesmo um método transformador. O que tenho feito é, sem pudor, me forçar a realizar atividades que eu antes considerava importantes para mim. Assim como me forcei a sacrificar esses mesmos momentos, precisei refazer o caminho. Quando percebi minha falta de sensibilidade com a vida, acompanhando sombras em uma caverna solitária, comecei me forçando a viver os momentos “comuns”. A mesma estratégia que usei para me concentrar em atividades que exigiam sacrifícios: forçar para sair do ciclo da produtividade compulsiva. Uma voz perturbadora, às vezes silenciosa, me jogava em agonia, exigindo produtividade, motivação, organização, movimento. Nunca contemplação.

Como disse, não é elegante, não tem fórmula mágica, tampouco receitas. No início, apenas me forcei. Foi fácil? Nem um pouco; desconfortável, irritante, agoniante. Mas eu fiz. Apenas faça. Talvez você pense: “Forçar o quê?” Nada complexo: viver um momento em família, assistir a um filme, ler um romance, acompanhar um seriado, viajar, caminhar, conversar, brincar com meu sobrinho, jogar, sentar no sofá e respirar, sair para jantar. Momentos simples que, a meu ver, são os mais significativos. Infelizmente, estamos sacrificando esses momentos.

Por anos, imerso em projetos e metas, esses momentos simples se perderam, ficando à mercê da corrida maluca, em profundo estado de alerta, em conflito, modo de sobrevivência, sempre correndo, sempre produzindo. E vivendo?

Hoje, como a rotina permite, e demorei a conquistá-la, eu me permito não trabalhar e realizar o máximo de atividades diferentes em momentos em que sei que preciso me desligar, sobretudo no fim de semana. Antes, trabalhava de segunda a domingo, em feriados, Natal, Ano-Novo, de madrugada, em escala 6×7 e até 7×7. Após alcançar várias metas, uma espécie de vício se instaurou no meu ser: eu precisava sentir que estava avançando o tempo inteiro. Era caderno na mochila, era um dispositivo eletrônico sempre por perto, sempre em prontidão para acompanhar um trabalho, um projeto, um estudo.

Quantas vezes adiantei trabalho num domingo na roça, ouvindo todos se divertirem. Eu precisava, sinceramente? Não. Mas a vida cobra, cedo ou tarde. E, como num final de tarde em que os sons da noite vão, pouco a pouco, se instaurando no ambiente, quando nos damos conta já é noite. Num cara ou coroa em que, cedo ou tarde, a banca vence, essa rotina começou a afetar minha saúde geral, sobretudo a mental; até hoje, sinto uma sombra pairar sobre momentos tranquilos. Um peso, algo à espreita, que, se eu permitir, toma os pensamentos e transforma o descanso em algo excruciante. Tome este pequeno relato como um convite à reflexão: até que ponto você está se exigindo demais quando não deveria? Reflita; pense; será que você também não está nessa corrida maluca?

Para você, caro leitor: sem fórmulas prontas; apenas repense a vida, suas ações, atitudes e comportamentos. Hoje, o que você está sacrificando para alcançar algo? Será que já não alcançou e, deliberadamente, escolheu outra conquista, outra montanha, outra jornada? Será que celebrou, com quem importa, essa chegada? Será que se deu conta de que chegou aonde queria? Ou, melhor, celebrou o caminho, como discuto neste outro artigo?

Quero saber sua opinião. Se passou por isso, o que fez para mudar? Eu forcei, apenas forcei, e ainda forço, sempre afastando a sombra, que está sempre à espreita. E você? Se ainda não fez, o que poderia ser feito?

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