A falácia da chegada em tempos de tecnologia

“Múltiplas faixas de chegada em sequência enquanto um corredor avança, simbolizando a promessa de ‘chegar’ que sempre se desloca — capa do artigo ‘A falácia da chegada’ no MenteMáquina.”

Quantas vezes você escutou, ou mesmo proferiu, as seguintes palavras: “Quando eu finalizar esse curso, minha vida vai mudar”, “Quando eu ganhar X dinheiro, serei feliz”, “Quando eu conhecer tal pessoa, minha vida vai ser perfeita”, “Quando eu ler um livro por semana, serei uma pessoa diferente”, “Quando eu escrever um artigo por dia, terei sucesso”, “Quando for tal dia, iniciarei determinada atividade”, “Quando eu terminar determinado projeto, minha vida será diferente”… e, diante de todas essas promessas de alcançar a próxima marca, “finalmente serei feliz”… promessas e mais promessas. Vamos empilhando metas com o intuito de alcançar um futuro idealizado onde, finalmente, seremos ‘algo’. Mas, se observarmos bem, são só declarações de intenção, são compromissos adiados, são palavras, quase todas vazias. E, novamente, surge um “mas”: por que tantas e tantas pessoas as proferem sem refletirem sobre o motivo de tê-las dito? O que sustenta essa crença? Simples: estamos diante da falácia da chegada ou, como tratarei neste artigo, de um viés temporal: falar sobre o amanhã é mais confortável do que agir hoje. Vamos falar sobre isso.

O que é a falácia da chegada?

O termo “falácia da chegada” foi popularizado por Tal Ben-Shahar, Ph.D. em Psicologia por Harvard, autor e professor de cursos sobre felicidade. A falácia da chegada é um fenômeno antigo que, muito provavelmente, pode ser rastreado desde os primórdios da civilização humana, talvez desde o momento em que o gênero Homo passou a estabelecer seu domínio perante a natureza. A falácia é o argumento fora de contexto, é um monólogo, é uma promessa com esperança de dias melhores; é quase uma anestesia para aliviar um sintoma criado pelo próprio indivíduo, ou seja, criamos o problema para, em seguida, criarmos a solução. Parece um pouco confuso, eu sei; mas a falácia, por mais inocente que pareça, é uma vilã silenciosa, astuta, que, por vezes, brinca com a nossa esperança.

Indo direto ao ponto: a “falácia da chegada” descreve o momento em que o indivíduo promete a si mesmo que, ao alcançar um marco, colherá alguma glória, uma recompensa, um alívio, uma paz interior, talvez até uma felicidade duradoura. Perceba que essa falácia se apoia fortemente no resultado, pois atravessa-se uma provação agora para, depois, colher o fruto. Na minha leitura, ela distorce a ideia de “colhemos aquilo que plantamos”, pois o foco sai do cultivo e se fixa fortemente em um ponto de chegada sempre adiado. Perceba que o sujeito acumula marcos, porém, se a felicidade duradoura não aparece, conclui que ainda falta o “marco correto”. Talvez o próximo, talvez um maior. Quando o resultado nunca chega, a culpa cresce, instala-se um vazio e pode surgir uma melancolia corrosiva; não raro, a pessoa se flagra pensando: “não tenho direito a nenhuma recompensa, ainda não alcancei o marco”. Assim, essa “promessa”, esse ponto de chegada, vira horizonte para milhares, que terceirizam a própria felicidade, a motivação, os objetivos e os sonhos a uma chegada: serei a pessoa X quando chegar ao lugar Y; serei feliz quando realizar algo. Percebe o problema? Há sempre um “se”.

Mas existe um agravante, e grande: os tempos atuais. Antes de prosseguirmos, permita-me retomar a fala anterior sobre a possibilidade de a falácia remontar aos primórdios da civilização. É a minha leitura, uma divagação. Dito isso, ao observarmos o ser humano, constatamos que somos mestres em nos adaptar ao meio, seja na esfera física, social ou comportamental. Diante de inúmeras intempéries, nossa espécie soube ler os sinais do seu tempo e criar condições para superá-los, indo além do esperado. Observe que não ficamos passivos ao ambiente e que, em resposta aos estímulos, ocorreram adaptações biológicas, fisiológicas e comportamentais; também se manifesta o fenômeno da adaptação hedônica.

Sabe aquele momento singular que marcou você de forma talvez inexplicável? Um instante de puro contentamento, de felicidade genuína, de leveza; ou, infelizmente, um evento negativo. Nesses momentos, o corpo entra em desequilíbrio interno: hormônios atuam, sistemas reagem. Mesmo diante de grande alegria, esse pico desestabiliza o interior. Como nossa biologia evoluiu para buscar equilíbrio psicológico (uma espécie de homeostase), com o tempo o pico de felicidade tende a se estabilizar e a tristeza tende a diminuir, atenuando a intensidade emocional do evento. Em outras palavras, nivelamos os picos. Todavia, devo esclarecer que a adaptação hedônica nem sempre é completa; há deslocamentos duráveis do bem-estar, para cima ou para baixo, a depender do evento, do contexto e do significado que lhe atribuímos.

Tecnologia como amplificador da falácia?

Retornando, o grande problema é que, em meio a uma era altamente tecnológica, e agora, ainda mais, com a capacidade dos algoritmos de nos fornecer (e gerar) elementos que antes levariam horas, dias e talvez meses (texto, imagem, vídeo), a falácia vai se instaurando ou evoluindo para uma forma única, talvez mais severa. Em tempos de máquinas que “aprendem”, que nos entregam rapidamente o que solicitamos, e com um mercado que se molda perante tais inovações e conhece bem suas capacidades, tornou-se comum usar essas tecnologias em praticamente todas as atividades para, de um modo ou de outro, acelerar resultados.

Até aí tudo bem, esse fenômeno não diferente tanto de outras tecnologias, como a calculadora, os computadores, a internet e o smartphone. A grande questão é que o mundo atual privilegia a velocidade e, em muitos cenários, relega a qualidade para segundo plano, empurrando-nos a uma corrida maluca; tem que ser mais rápido, tem que entregar resultado, tem que ser produtivo (como desenvolvi em A corrida maluca?).

E, diante desse contexto, as metas mudam. Buscamos resultados rápidos, vivemos à mercê do próximo marco; o mundo cobra velocidade e, ao olharmos ao redor, parece que todos passamos a correr. Por quê? Cursos se acumulam e são consumidos diariamente, com a promessa de dominar tecnologias vigentes para nos auxiliar na busca por objetivos. Quem não se lembra da promessa do metaverso? Quantos cursos de pós-graduação e derivados foram lançados para atender a um mercado sedento por profissionais que seriam a vanguarda de uma nova era da cibercultura. O desfecho, no entanto, foi outro (tal desfecho não significa que, com a IA, ocorrerá o mesmo). São áreas diferentes, embora pertençam ao mesmo domínio: inovação. O metaverso ainda não chegou, mas a IA, sim.

Este texto não é sobre inovação nem sobre discutir em profundidade a IA, a cibercultura, o metaverso ou qualquer tecnologia amplamente debatida; muito pelo contrário, é um convite para refletir se, diante dessas ferramentas, não estamos tentando ser mais máquina do que humanos. Metas cada vez mais irreais, mais irracionais, menos humanas. E qual é o objetivo? Retomando o ponto inicial, trata-se da promessa de um dia melhor; vivemos, então, para alcançar esse arco-íris, talvez com o júbilo diante de um pote de ouro. O problema é que não há final da jornada; não há retorno ao mundo comum como herói transformado, à maneira do monomito de Campbell. O que há é uma trajetória que não chega a lugar algum e que raramente entrega a satisfação esperada, porque superestimamos a intensidade e a duração do efeito emocional do marco futuro. Viver apenas pelo resultado é arriscado. Talvez o maior risco seja esquecer que ainda somos humanos e que estamos vivendo, sim, todos os dias (assim espero).

Não é errado planejar, muito menos ter metas ou percorrer um caminho em busca de algo, seja o que for. Mas viver simplesmente pelo resultado (ou, talvez, pela sensação do resultado) pode ser um grande perigo. Primeiro, porque, dependendo da meta, o caminho pode ser longo, e viver pelo resultado faria o indivíduo estar fadado a uma vida de agonia, sempre mirando o futuro; o que não faz sentido, pois, ao percorrer o caminho, sem dúvida estamos mudando, e, às vezes, mudando de tal forma que influenciamos o nosso redor, o ambiente, as pessoas. Segundo: é comum que “chegar lá” tenha um efeito diferente do imaginado. Frequentemente, o resultado é um momento de glória, e toda glória é passageira; dependendo da expectativa, o indivíduo pode cair nas profundezas de um abismo, em uma agonia incessante, melancólica e triste.  Chegamos ao cume da montanha, e agora? Olhe bem, há sempre outra, ainda maior, o que nos empurra para um ciclo de busca que, se guiado apenas pelo resultado, proporcionará poucos momentos hedônicos para apreciar o feito.

Mudando a lógica da falácia.

E se mudarmos a lógica da falácia? E se, de forma consciente, ajustarmos a percepção e entendermos que, ao longo do caminho que trilhamos, colhemos resultados a cada dia? Essa percepção já mudaria o desfecho. Agora percorremos o caminho com plena consciência de que estamos sendo transformados à medida que avançamos rumo a um horizonte de chegada. É como subir uma escada: a grande meta é alcançar o último degrau? Se olharmos rápido, talvez para muitos, sim. E se analisarmos com calma e, em plena consciência, planejarmos subir cada degrau? A cada subida, sem perder o foco no último, compreendemos que também estamos mudando. Talvez o subtexto seja este: de certa forma, eu também estou subindo e posso ter a satisfação de estar mais próximo desse horizonte, reconhecendo que percorri um caminho valioso até aqui.

Na vida, a cada degrau percorrido, temos a oportunidade de vivenciar pequenos e importantes prazeres, frutos da constância. A experiência vai moldando a vida e, quando chegamos ao último degrau, qualquer que seja o marco, já acumulamos momentos de satisfação, mesmo diante das intempéries. Estamos mais conscientes de uma transformação que se fez aos poucos, em vez de um instante isolado que, para muitos, parece uma aura capaz de transformar alguém de uma hora para outra no que almeja. Não é assim que funciona, ou não deveria. A verdade é que nos transformamos ao longo da jornada, e o final é apenas uma parte dela.

E você, caro leitor, o que está percorrendo? Será que não vive à espera daquele momento singular para se sentir completo? Talvez você não precise disso. Talvez baste entender que a vida é uma constante, que tudo está em movimento, em transformação, e que você também está. Qual degrau você está subindo hoje?

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