Ano novo, promessas antigas.

Capa sobre promessas de ano novo e planejamento, com “CHEGADA” e “Felicidade”.

Não é de hoje que as pessoas se comprometem profundamente com mudanças no início do ano por meio de promessas, sempre muito motivadas por um momento vindouro no qual estarão realizando atividades que, em algum momento, transformaram a vida de alguém. Quem sabe um novo projeto, um novo emprego, aprender um instrumento, iniciar um curso, dominar um idioma, praticar atividade física, começar a ler, viajar… seja o que for. Quase sempre é um instante de alívio quando frases como “vou mudar de vida”, “dessa vez é verdade” ou “agora vai” surgem como sinônimos de uma esperança que se repete ano após ano, como uma anestesia para o mundo real, que, como sabemos, pode ser extremamente intimidador. Mas por que tantas pessoas não conseguem realizar esses feitos, até mesmo os mais simples, como dormir mais cedo? A verdade é que nada é tão simples quando se vive, em certa medida, sob o domínio do imaginário, principalmente quando se permanece no planejamento de algo que pode melhorar a vida das pessoas, e é isso que vamos discutir.

O primeiro grande problema é que o fim e o início de um novo ano representam, obviamente, o encerramento e a abertura de um ciclo, geralmente marcados por confraternizações, reuniões familiares e momentos de reflexão sobre o que virá nos meses seguintes. É exatamente aí, nesse ponto, que ficamos mais vulneráveis, principalmente quando aquilo que prometemos no ano anterior não foi realizado. Perceba que, diante dessa não realização, tão humana, tendemos a ser complacentes conosco, oferecendo uma espécie de segunda chance, muitas vezes movidos por um “espírito” festivo e por uma narrativa sedutora. Agora existe uma nova oportunidade de fazer o que não foi feito; afinal, é o início de um novo ciclo e, desta vez, eu consigo.

Só que basta olhar ao redor para notar que quase nada muda de forma tão drástica assim. Aquela euforia é, pouco a pouco, apaziguada pela vida cotidiana, inconstante, às vezes intensa, às vezes dramática e, por que não, tediosa. A questão é que a vida acontece, você querendo ou não. E, nessa miríade de obrigações, atividades e afazeres, a promessa vai ficando esquecida, como algo varrido para debaixo do tapete. Em alguns momentos, a promessa reaparece como uma velha conhecida, incômoda, que volta para te assombrar e te lembrar da dificuldade de sustentar mudanças. E, para se livrar desse incômodo, você se compromete de novo, pela segunda, terceira, quarta vez, até que tudo se reduza à deixa mais comum de todas: “segunda-feira eu começo”. E aí, no fim, nada muda.

Trabalho hercúleo

Então, por que prometemos se não vamos cumprir? Por que é tão sedutor prometer? Ou, melhor, como quebrar esse ciclo? Diferente de Hércules, praticamente obrigado a realizar os lendários doze trabalhos como penitência após ser enlouquecido por Hera, ou mesmo de Ulisses, na Odisseia, que precisou de um esforço descomunal para voltar para casa, você não deve tratar o ato de proferir uma promessa como um evento qualquer, muito menos como uma guerra, e menos ainda como uma simples aposta no desconhecido. Muitas vezes, nesse instante em que você promete realizar algo, perceba, provavelmente está entorpecido por motivação demais, num momento em que o início de um novo ciclo funciona como um combustível rápido, que até impulsiona, mas também se esgota cedo demais.

Eu não quero me aprofundar nos motivos que nos levam a prometer realizar certas façanhas ano após ano. Falarei sobre esse tópico em outro momento. Sem me estender, saiba que a promessa é sedutora, principalmente naqueles instantes em que, diante de um mundo pouco acolhedor, fugimos, talvez, para um reino do imaginário, embriagados por visões de um futuro melhor. O que seduz, muitas vezes, é imaginar que ir do ponto A, “começarei na segunda”, ao ponto B, a recompensa, é muito fácil. O problema é esquecer que existe todo um percurso entre o ponto A e o ponto B. Chamamos isso de processo, e ele depende fortemente de uma rotina sustentada por hábitos. É aí que tudo começa a desandar.

Para quebrar esse ciclo, você precisa de algo que provavelmente já sabe. Não é mágico, não é tecnológico e nem depende de IA, muito menos de algo mirabolante. Inclusive, é mais antigo e mais simples do que parece: planejamento. Não fique surpreso, é isso mesmo. O que falta para você realizar aquilo que pretende neste ano é tratar esse objetivo, seja qual for, como um projeto. E sabemos que qualquer projeto tem início, meio e fim. Logo, precisa de etapas, análise de custos, estratégias, critérios e um roteiro mínimo. Promessas sem planejamento viram intenções vazias; viram ruído, algo que, aos poucos, incomoda. O que você precisa entender é que, como em quase tudo na vida, para alcançar certos resultados existe um caminho a ser trilhado. Não costuma ser fácil, mas tende a ser possível na maioria das vezes, desde que você compreenda, com honestidade, o que precisa ser feito ao longo do processo.

Dito isso, em vez de se concentrar em forjar palavras novas para repetir compromissos antigos, permaneça o mais sóbrio possível nesse momento, por mais ordinário que pareça. Isso inclui, de certo modo, evitar promessas em momentos que deveriam ser de puro entretenimento. Viva por inteiro o que está fazendo e deixe para um momento de calma o planejamento adequado, aquele que vai te levar a cumprir o que você disse que faria. O grande segredo é cultivar uma mentalidade virtuosa, capaz de enxergar a própria realidade, que, querendo ou não, dita boa parte das estratégias necessárias para tirar uma intenção do papel.

Planejamento como antídoto

O que quero dizer é bastante simples: planejamento depende de uma análise minuciosa do seu contexto, isto é, da sua vida. E, se me permite, eu errei muito nesse ponto. Eu tinha dificuldade de enxergar com clareza que, em certos momentos, eu não podia realizar o que queria, porque o esforço exigido era grande demais para aquela fase, ou porque dependia de um nível de compromisso que, naquele instante, eu não estava disposto a sustentar. No fundo, eu sabia que não conseguiria cumprir o que estava prometendo, mas aquilo ainda soava como algo talvez possível. Só que o mundo real não funciona assim, uma vez que, sem análise do contexto, a sua promessa não se sustenta.

Mesmo assim, eu me comprometia com algo, ainda que por um breve momento, e dizia palavras que me anestesiavam só por existirem: “farei isso no início do ano.” O resultado era previsível demais: muita motivação e nenhum planejamento. Eu até começava, e por um tempo até ia bem, só que logo se tornava insustentável, porque a minha rotina não permitia, pelo menos não daquela forma. A promessa virava frustração, virava mais do mesmo, e ressoava de forma dolorosa na minha mente, como um fracasso que poderia ter sido evitado.

Foi assim que eu fui percebendo, aos poucos, que precisava pensar com clareza sobre a minha rotina e, sobretudo, sobre aquilo que eu realmente queria realizar. Esse pensamento me levou a uma constatação simples, que costuma doer um pouco quando a gente encara de frente: não é possível abraçar tudo ao mesmo tempo. Por mais tentador que seja acumular atividades, no fim, dependendo do que você está tentando construir, isso vira desperdício de energia.

Não dá para abraçar tudo

E aqui está a primeira máxima do nosso artigo: sua energia e o seu tempo são limitados. Ao longo do ano, você ainda vai precisar lidar com o básico, com as obrigações, com os imprevistos, com os dias bons e com os dias ruins. Por mais que você prometa realizar algo neste ano, você continua vivendo dentro de um dia que tem 24 horas. Então perceba, com calma, o que está acontecendo: ao prometer realizar algo, você está acrescentando uma nova atividade dentro dessas mesmas 24 horas. No fim, para poupar energia ou usá-la de forma eficiente, você precisa escolher bem o que entra na sua rotina, já que o tempo de todos é limitado.

Escolhas? Sim. Muitas vezes simples, como escolher entre A e B, outras vezes difíceis, como escolher A em detrimento de B, C ou D. Se eu tenho 24 horas e quero realizar uma nova atividade, preciso encaixá-la em algum lugar. E, se todos os horários já estão preenchidos, preciso ter plena consciência de que algo precisa mudar. Dependendo do contexto, talvez acordar mais cedo, comprometer uma parte do fim de semana, usar um trecho da noite, aproveitar o horário do almoço, reduzir o tempo diário no smartphone (não subestime esse ponto, pois estamos passando cada vez mais tempo interagindo com o celular, e isso costuma ser um ralo silencioso de atenção) ou até usar o deslocamento para casa ou para o trabalho.

Só que, como esse processo de escolha costuma ser incômodo e exige mudanças na rotina, é exatamente aí que a promessa morre. Em muitos casos, não é falta de capacidade, é falta de disposição ou até falta de margem para mexer na própria vida. E, em certos períodos, com uma rotina intensa, fazer qualquer ajuste pode ser realmente difícil. Então comece por aí. Analise muito bem o seu contexto, as suas atividades diárias, e reflita sobre o que você realmente quer realizar, identificando o que precisa mudar na sua rotina para sustentar esse projeto. Decida do que você está disposto a abrir mão, ainda que momentaneamente, para alcançar um resultado. Aqui você precisa de foco, clareza e, sobretudo, honestidade. É por você e para você.

Não basta uma intenção bonita, pois como vimos, ela é sedutora demais, logo, você precisa de um raciocínio conclusivo, real, com os pés no chão. Assim, analise sua rotina e, em seguida, proponha pequenas mudanças, sem nada dramático ou radical demais. Algo que você possa sustentar, depois, teste, teste e teste. Aos poucos, observe essas alterações e perceba como elas ressoam no seu entorno.

Aliás, vale reforçar que você não pode ter medo de errar, pois falhas vão acontecer, e está tudo bem. O importante é ter um esquema que permita avaliar com clareza o seu progresso ao longo do percurso. E fique claro: você não precisa de tecnologia para isso. Muitas vezes, papel e caneta resolvem. Mas não sejamos puritanos, uma vez que você também pode usar um software no computador, um aplicativo no celular, seja o que for, desde que a escolha possibilite avaliar semanalmente o que foi feito, quantas horas foram gastas, o que deu certo, o que não deu certo, o que precisa de reforço e o que precisa mudar.

Siga o simples

Talvez você tenha pensado que precisaria de algo mirabolante, mas, no final das contas, a resposta direta, e você já sabe, é não. Por que tantas pessoas falham? Talvez por estarem em busca de uma ilusão. Muitos sabem disso e tentam vender, a todo custo, uma promessa de mudança: esse “método” é revolucionário, esta “planilha” é mágica, esta forma de fazer algo é “sem igual”. É sempre uma ilusão que seduz. E assim vamos empilhando cursos e mais cursos, colecionando métodos, técnicas e formas de gerir a nossa vida que, infelizmente, permanece inalterada. Então, siga o simples:

  1. Aceite o básico: sua energia e seu tempo são limitados.
  2. Faça uma análise honesta do seu contexto: rotina atual, obrigações, imprevistos, limites e fase de vida.
  3. Defina um objetivo por vez: transforme a promessa em um projeto com início, meio e fim.
  4. Mapeie o processo: quais etapas existem entre o ponto A (“começo na segunda”) e o ponto B (resultado).
  5. Escolha o que entra e o que sai: decida do que abrir mão, mesmo que temporariamente, para criar espaço na agenda.
  6. Crie uma rota mínima: ações pequenas, realistas e sustentáveis, evitando mudanças dramáticas.
  7. Estabeleça hábitos que sustentem a rotina: menos e melhor, com consistência.
  8. Monitore semanalmente: o que foi feito, quantas horas investidas, o que funcionou, o que falhou, o que precisa de reforço e o que precisa mudar.
  9. Use a ferramenta mais simples possível: papel e caneta já resolvem; se preferir, use app ou planilha, desde que ajude a medir.
  10. Teste, ajuste e repita: erros vão acontecer; trate falhas como dados para calibrar o plano.
  11. Fuja do mirabolante: desconfie de “método revolucionário”, “planilha mágica” e promessas fáceis; mantenha os pés no chão.

    Em última instância, porém, como se pode concluir, as concepções em torno do ato de prometer realizar algo ao longo do ano, ou na próxima segunda-feira, tendem a se esvanecer diante de uma rotina intensa. Para muitos, em certas fases da vida, é difícil propor mudanças, porque isso exige algum grau de sacrifício, às vezes até descomunal. Assim, como sugerido, analise com calma a sua rotina e busque lacunas que possam servir de espaço para encaixar certas atividades, ou identifique o que pode ser substituído. E não subestime o efeito das tecnologias, pois uma simples “espiadinha” no smartphone pode sugar o pouco tempo que temos e comprometer, de certo modo, o avanço em direção aos resultados que buscamos. Também não entre nessa de procurar lacunas perfeitas, capazes de te oferecer horas seguidas de foco. Se conseguir, ótimo. Só que sabemos que nem sempre é fácil ter esse horizonte. Por isso, valorize aqueles 10, 20, 30 minutos disponíveis. Aos poucos, você percebe que cada minuto é mais importante do que parece.

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