FOMO: o preço de viver a vida do outro
Não é de hoje que percebemos como nossas próprias criações nos conduzem a moldar nossas experiências, alterando profundamente nossa identidade, nossa realidade e o nosso convívio social. Por um lado, a nossa capacidade imaginativa, cuja adaptabilidade está enraizada na própria evolução da espécie, é prova de que temos o potencial de alcançar o imaginário; e nem precisamos ir longe, por mais que seja algo que consideramos normal, o smartphone, a inteligência artificial (IA) e a própria internet são recursos fantásticos, produtos diretos de todo o avanço científico. Por outro lado, a figura do sujeito que detém domínio total sobre sua criação permanece um mito que atravessa o imaginário coletivo (um Prometeu moderno), já que perdemos com facilidade a condição de protagonistas e assumimos papéis secundários, nos quais nos tornamos altamente dependentes. O que nos leva à raiz de uma questão que eu gostaria de abordar sob essa ótica: o “medo de ficar de fora”.
Fear of Missing Out
Talvez você já tenha ouvido falar do termo FOMO, sigla para Fear of Missing Out (o famoso medo de ficar de fora). Mas o que exatamente significa esse termo? Primeiro, vamos direto ao ponto: respondendo à pergunta anterior, FOMO é uma espécie de desconforto gerado pela expectativa de que “algo melhor” está acontecendo em outro lugar e você não está presente para interagir, para ouvir, para acompanhar; você está, literalmente, perdendo a ocasião.
O grande problema é que essa sensação não é tão inofensiva quanto muitos pensam, podendo evoluir para algo muito mais complexo, transformando o indivíduo em uma espécie de zumbi em busca de momentos que, justamente, não está vivendo. Assim, o conceito, que originalmente pode ter surgido na década de 1990 para explicar certos comportamentos de consumo, passou a ser um sintoma direto de uma era que nos obriga a acompanhar tudo, e a todo momento.
Mas, antes de entrarmos em detalhes sobre essa “síndrome”, eu gostaria de enfatizar que tal comportamento ou sintoma, não é um subproduto da inovação tecnológica, pois a sensação é velha, a emoção em si é antiga. O entendimento de que somos seres cujo comportamento é enraizado na presencialidade, dotados de capacidade de distinguir a nossa própria relação com a sociedade, ao contrário do suposto objetivismo moderno, é, na verdade, uma falácia que carrega suas próprias questões históricas.
Nossa personalidade é altamente suscetível e, por vezes, rompe as ideias tradicionais de estabilidade, logo, esse sentimento de “estar perdendo algo” existe desde que há vida em grupo, antes mesmo, inclusive, da própria ideia de sociedade. Por exemplo, não é de hoje que os indivíduos têm medo de ficar de fora de uma celebração, de um ritual, de uma decisão do grupo, quem sabe até da comunidade. E, perceba, são exemplos que podem ser atribuídos a diferentes contextos, especificamente a qualquer momento histórico em que pessoas formaram um contrato social.
Nesse espaço de convívio, sempre existiu o pensamento de que “se eu não for a determinado evento, perco contatos, prestígio, casamento, negócios…”. E nem precisamos nos aprofundar muito nessa questão, uma vez que a ansiedade de comparação social é muito anterior à internet. Então, como experiência humana, o FOMO não é novo. O que, de fato, é novo é a escala, a intensidade e a frequência com que essa sensação é disparada hoje. E tal conceito é um ponto que requer discussões aprofundadas.
O que a tecnologia fez foi turbinar o fenômeno
Faça um pequeno exercício de imaginação (talvez não seja tão ficcional quanto algumas pessoas gostam de acreditar): quantas vezes você presenciou uma pessoa que estava fisicamente presente, mas significativamente distante? O corpo está ali, visível, porém a essência do sujeito parece navegar em outra dimensão. Em outras palavras, são pessoas que, embora estejam em um determinado local, têm a mente vagando por outros; e, muitas vezes, o culpado é a ansiedade de estar perdendo algo importante.
O curioso é que existem dois paradoxos que podemos considerar. O primeiro, que chamarei de paradoxo interno (ou da presencialidade), é que o sujeito está, na verdade, perdendo a própria experiência de estar ali, ansioso por estar em outro lugar. Ele, ironicamente, perde a experiência real que está vivendo no momento presente (perde o aqui e agora). E o segundo, que chamaremos de paradoxo da comparação (ou da reciprocidade virtual), é que o sujeito postou uma foto do ambiente em que estava e, de certa forma, outra pessoa pode estar vendo isso e, através do FOMO, almejar o local em que o primeiro sujeito está. No fim, ambos almejam realidades que não são plenamente vividas, pois perdem a existência concreta enquanto perseguem uma existência aparente. Deveras, curioso e trágico em igual medida.
Assim, e por experiência própria, observo pessoas rolando seus feeds infinitos de redes sociais em cinemas (já presenciei gente interagindo com o smartphone durante todo o filme), academias (no intervalo entre séries e, às vezes, durante os próprios exercícios, algo que, sabemos, pode ser perigoso), jantares em família (um desrespeito ao outro, sobretudo aos entes queridos), em restaurantes, bares ou em qualquer ambiente típico de convívio social. Pessoas e mais pessoas simplesmente deixam de se comunicar de forma presencial; muitas estão ali apenas para manter algum contrato social, subjugadas por uma vontade que parece, muitas vezes, inofensiva. Mas será que é mesmo? Em diálogo com várias pessoas, já ouvi respostas que posso sintetizar na seguinte frase: “eu só quero ir para casa, me jogar no sofá e ficar no meu celular”.
Não vou entrar em questões específicas (até porque a generalização é perigosa e o contexto sempre importa), mas, diante de uma realidade que não pode ser negligenciada, arrisco dizer que a generalização é o menor dos nossos problemas. A meu ver, esse fenômeno se aproxima de uma espécie de epidemia de saúde mental que não vem sendo discutida como deveria, e que, com o avanço da tecnologia, se espalha rapidamente por todas as camadas da sociedade, de crianças a idosos. Estamos, cada vez mais, vivendo a experiência do outro, enquanto suspendemos a nossa.
E por que essa discussão se torna tão agravante nos dias atuais? Muito simples: o que a tecnologia fez foi turbinar o fenômeno (tema que desenvolvo em A Corrida Maluca). As tecnologias que hoje são praticamente indissociáveis da vida humana, como a internet, o smartphone, as redes sociais (e, agora, a IA) colocaram literalmente um “megafone” em algo que já existia. Antes, você sabia de algumas poucas informações: talvez uma festa que aconteceria no fim de semana, talvez uma viagem que alguém fez para um lugar remoto, um evento musical, uma conquista específica, um negócio fechado; perceba que tudo dependia muito do seu círculo social e, às vezes, até de uma profunda investigação.
Agora, você vê, em tempo real e de camarote, milhares de pessoas em viagens, em restaurantes, em celebrações e em eventos, publicando conquistas profissionais, exibindo corpos “perfeitos”, encenando histórias amorosas que você provavelmente já viu em algum filme. São mestres na contação de histórias (o famoso storytelling). São vidas aparentemente perfeitas que capturam a nossa atenção. Mas será que é só a atenção?
Infelizmente, esse excesso de informações tem alimentado um aumento de FOMO que, por sua vez, está associado a mais ansiedade, pior qualidade de sono, sentimentos de solidão, menor satisfação com a vida, menos sensação de realização pessoal e uma percepção mais distorcida da realidade. Em outras palavras (permita-me ser enfático): o indivíduo é lançado em um vórtice de agonia contínua, e o tempo parece deixar de existir; sobra a tortura da comparação, a prisão a uma janela para a vida alheia, sempre “melhor” que a sua. Pode soar presunçoso ou até fora da realidade e, para muitos, exagerado; porém, basta observar brevemente ao redor para notar que a paisagem atual é mais distorcida do que imaginamos. Note, aliás, como essa comparação constante com o outro (muitas vezes desleal, já que a maioria exibe apenas o recorte positivo da rotina) vem transformando radicalmente o comportamento de muita gente. O resultado é muito peculiar: toda essa ansiedade talvez esteja ligada menos ao que o indivíduo “está perdendo” e mais à ideia de que os outros estão vivendo algo melhor do que ele (a velha Falácia da Chegada).
Um fenômeno trans-histórico
Diante disso, é correto dizer que o FOMO é “moderno”? Talvez a sociedade midiatizada afirme que sim; se, porém, falarmos da emoção pura, básica, como o medo de exclusão, a comparação com o outro ou até mesmo a inveja social, a resposta tende a ser não. No fundo, o FOMO é um rótulo recente para algo profundamente enraizado no comportamento humano, que as novas tecnologias apenas estimulam e, de forma pragmática, reorganizam.
O ponto a considerar é que, embora a cultura contemporânea seja, sem dúvida, cada vez mais complexa, ainda assim preservamos (e até perpetuamos) nossas características mais básicas que nos definem como seres humanos, sendo um exemplo disso o fato de que muitos se esquecem de como somos seres ultrassociais. Ficar de fora do grupo, em termos evolutivos, podia significar menos chance de sobreviver, o que ajuda a explicar por que o cérebro é tão sensível a sinais de exclusão. O valor aí contido é, de fato, significativo, pois muitas vezes a vivência social oferecia ao indivíduo a possibilidade de esculpir a si mesmo (definir quem é, quem quer ser, com quem deseja se vincular).
Todavia, não podemos deixar de notar que o grande problema está, e aqui voltamos ao início desta discussão, no uso problemático das ferramentas que nós mesmos criamos. De protagonistas a meros secundários da nossa própria história. São tecnologias que amplificam constantemente esses mecanismos primitivos, adicionando uma camada que também não é exatamente nova: vidas embelezadas, editadas, filtradas, apenas os melhores momentos aparecendo no feed, o tempo todo, a cada instante, em todos os lugares.
Como lidar com o FOMO?
Afirmo que não é fácil lidar com o FOMO, mesmo que alguns sinais sejam bem comuns e, às vezes, saiam do controle. Antes de falar desses sinais, observando muitas pessoas (e até em contato direto com várias), percebi que muitas são altamente inocentes quando afirmam que não são, de certa forma, viciadas, que estão presentes o tempo todo, que mal tocam no smartphone e que, quando o fazem, é apenas para algo importante. Aliás, reforçam que são imunes ao vício. Respostas intrigantes; quase sempre tão superficiais quanto muitos dos conteúdos consumidos.
Mas somos adultos, e é nosso dever sermos críticos de nós mesmos. Então, vou trabalhar com duas perspectivas: como perceber em você e o que fazer a respeito. Não preciso explicar que, para realizar essa autorreflexão, você precisa ser sincero; não comigo, não com o outro, mas com você.
Em primeiro lugar, como perceber FOMO em você no dia a dia? Alguns sinais são bem comuns, mas vou priorizar aqueles que eu já senti e precisei enfrentar (sim, também é um relato pessoal):
- Scroll compulsivo: você termina de olhar o feed… e, sem perceber, abre o app de novo segundos depois. Saiba que esse comportamento não é uma mera curiosidade tranquila; é quase um “medo de perder algo” se não acompanhar tudo, o tempo todo.
- Dificuldade de dizer “não”: aceita convite, reunião, evento, festa, lançamento de foguete, exploração em outro planeta, curso, live… Muitas pessoas aceitam “tudo” por um medo deveras genuíno. Eu já experimentei essa sensação, dizendo “sim” a tudo o que surgia e, infelizmente, percebi que estava minando minhas próprias energias. E sabe o motivo? Muito simples: eu nem queria de verdade, mas sentia que estar presente ali poderia mudar minha vida de alguma forma, e que eu ficaria de fora.
- Sentimento de que sua vida é “menos”: você vê viagens, jantares, casamentos, celebrações, conquistas profissionais e pensa que todo mundo está avançando e só você está parado. E, como eu já fui dominado por essa angústia, reconheço que é uma incapacidade de enxergar as próprias conquistas, avanços, vitórias. Mesmo que, racionalmente, eu soubesse que não era bem assim. Um sentimento que vai te aprisionando, corroendo sua saúde mental e, infelizmente, impactando negativamente a sua autoestima.
- Decisões guiadas pelo “e se…”: escolher é doloroso porque tudo vem acompanhado do famoso “e se eu escolher x e perder algo melhor?”. Confesso que essa é clássica, uma estrutura lógica (se você escolhe uma coisa, automaticamente abre mão da outra, isto é: se x, então não y). O “e se…” é até um bom exercício criativo para compor diferentes produtos; eu já o usei no desenvolvimento de histórias, de softwares, de animações, de aulas, de dinâmicas em grupo. Porém, quando esse “e se…” entra na vida cotidiana, sem que percebamos, vai nos empurrando para expectativas irracionais, alimentadas por comparação com o outro, servindo tanto para coisas grandes (carreira) quanto para coisas pequenas (fim de semana).
- Humor influenciado pelo que os outros postam: você estava bem, muito bem, feliz inclusive. Aí abre o Instagram, talvez o LinkedIn, quem sabe o TikTok… e, de repente, vem um incômodo, uma sensação de desgosto, uma tristeza, irritação ou sensação de inadequação. A felicidade se desmonta rapidamente. Uma inocente “olhadinha” pela boa e velha janela para o mundo digital pode te empurrar para o abismo do vazio.
Existem outras sensações, mas eu queria focar nos que eu, de fato, já vivi e observo facilmente em outras pessoas. A natureza “24 horas por dia” das tecnologias pode nos levar à insanidade e, se você se identificou com pelo menos alguns desses pontos, o FOMO provavelmente está “rodando em background” no seu cérebro; um vírus que está se espalhando agora mesmo.
O que fazer com o FOMO?
Procurar um profissional, de preferência um psicólogo com experiência nesse tipo de questão. Dependendo do grau de vício, você vai precisar de apoio especializado. Portanto, o que trago a partir daqui vem das minhas vivências e observações ao longo dos últimos anos, mas nada substitui um profissional. Certo?
Então, você foi adulto e, analisando cuidadosamente os relatos anteriores, identificou uma ou mais sensações no seu cotidiano. Após ser sincero, após de fato reconhecer essa problemática e o quanto ela pode estar influenciando, de forma negativa, a sua vida, é hora de mudar. É fácil? Não, assim como nada é simples quando está enraizado no nosso comportamento.
Quero deixar claro, desde já, que a ideia nunca foi “matar” o FOMO, até porque se trata de uma característica que nasce de algo profundamente humano, e que o objetivo é fazer você sair do piloto automático e se recolocar no centro de comando. Portanto, e reforçando, sempre foi sobre voltar a ter controle sobre suas escolhas, ou pelo menos ter consciência das suas ações.
Antes de prosseguirmos, gostaria de enfatizar novamente que o problema está no uso problemático da tecnologia; portanto, a questão nunca foi exatamente a tecnologia em si, e sim o que fazemos com ela, pois é um problema relacionado à dimensão humana, em sua plena pluralização. Dito isso, após reconhecer o FOMO, como lidar com ele? A resposta requer sinceridade absoluta para se ver como parte da problemática, pois é fácil olhar para o outro e dizer que ele está assim, que você não, que está no controle. Esse, aliás, é um dos sintomas do FOMO. Não, você não é imune.
Então, sem radicalizar, sem mudanças bruscas, sem promessas vazias e sem depender de um pico de motivação, comece pelo simples:
1. Higiene digital.
Repito, reforço, imploro: sem radicalizar. Comece realizando pequenos ajustes na sua rotina, uma vez que essa ação tende a ter um impacto significativo a longo prazo, e menos chance de se perder em um mar de promessas vazias. Eu mesmo tentei e tentei e tentei, durante muito tempo, mudar todo um comportamento construído ao longo de anos em um único dia. Não funcionou. Não conheço um bom “estudo de caso” de alguém que tenha conseguido fazer esse processo de forma abrupta de maneira estável. Para não depender da sorte, o melhor caminho é a mudança gradual (e não cair na Ilusão do Atalho Perfeito) que levará à construção de uma base sólida que oferece estabilidade com o tempo. Assim, comprometa-se a definir “horários de uso”.
Em vez de abrir a rede social o tempo todo, escolha microjanelas, como duas ou três vezes por dia, durante alguns minutos, por exemplo, 15 minutos. Tente respeitar esses horários como se fossem horários de remédio. Um cuidado importante é perceber que é comum observar pessoas entrando em ansiedade só por saberem que, em determinado horário, poderão “consumir” a sua “droga”. Quando essa sensação ocorre, é um sinal de que o “vírus” já avançou bastante e, portanto, pede mais atenção. Minha abordagem, inclusive em momentos de uso excessivo de jogos digitais, foi dividir o consumo em pequenos blocos durante o descanso.
Sempre gostei de usar a técnica do Pomodoro: estudava ou trabalhava por 25 minutos e fazia uma pausa de 5 minutos para levantar, beber água, ir ao banheiro, sem smartphone. Repetia esse ciclo três ou quatro vezes e, então, tinha 15 a 20 minutos de descanso. Era nesse intervalo maior que eu interagia com o celular: respondia mensagens no WhatsApp, conferia e-mails, resolvia o que fosse importante ou mais urgente. Com o tempo, e com objetivos claros, eu estava trabalhando, estava em projetos, estava estudando, não ocioso. O ócio desatento e constante também alimenta o FOMO. Percebi que precisava me afastar da superficialidade que não me levava a lugar algum para me dedicar ao que realmente importava. Trata-se de um exercício de presencialidade, isto é, viver o momento presente, porque o FOMO tende a distorcer a noção de tempo; quando imaginamos estar no presente, mesmo ao analisar alguém, na verdade estamos consumindo seu passado (quase sempre navegamos por registros de experiências já encerradas).
Confesso que, de certo modo, fui radical em contextos específicos. Por exemplo, tornei-me mais firme em reuniões, eventos, cinema, momentos com pessoas importantes (minha família, amigos): não usava o celular. De fato, fui radical nesse ponto, porque comecei a notar que aquilo era um desrespeito ao outro e à própria experiência de estar junto.
Como próximo passo, desative e, se possível, silencie as notificações não essenciais do smartphone. Sei que são mecanismos irritantes (e há motivo). Uma curiosidade é que em cursos de tecnologia, estudamos justamente estratégias para usar notificações a fim de influenciar o comportamento das pessoas; são como pequenos convites ao FOMO (e as empresas sabem disso). Faça o teste: silenciar as notificações push ou de aplicativos supérfluos ajuda bastante a reduzir a ansiedade e a manter o foco.
Outra estratégia simples, porém, direta, é limpar o seu feed, “retreinando” o algoritmo (seja qual for a rede) para alimentar o seu perfil apenas com conteúdos que, de fato, agreguem à sua vida. Cabe aqui uma reflexão: só você pode definir exatamente o que o conceito de valor significa para a sua trajetória. Assim, por exemplo, deixe de seguir (ou silencie) perfis que te colocam em modo de comparação/inferioridade. Pergunta-chave: “Este perfil me inspira ou só me faz sentir pior?”
2. Lembrar que o feed é um recorte
Pode parecer óbvio, mas fazer esse “clique mental” ajuda muito: o que você vê é edição, não a vida inteira de alguém. Aliás, ninguém posta boletos atrasados, crises existenciais, a ansiedade às 3h da manhã, brigas de família… Você acaba comparando a sua vida completa à vitrine do outro, e quase sempre é uma comparação injusta e fora de contexto, o que muitas vezes (de modo consciente ou inconsciente) te prende a um jogo de comparação contínua.
À medida que a percepção do “eu” real escapa do nosso campo de visão, mude o eixo: em vez de se comparar aos outros, use a si mesmo como referência. Você está melhor do que ontem em algum aspecto? (Sim, parece frase de autoajuda, mas funciona como exercício de medida interna.) Você é o parâmetro dessa comparação, nunca o outro, sobretudo quando esse “outro” chega mediado por uma janela digital chamada smartphone.
Em termos teóricos (arriscando um julgamento), a figura do indivíduo, antes de tudo, parece se dissolver no ambiente digital, liquefazendo aquilo que, em essência, deveria apontar o contrário: estamos cada vez mais próximos, embora distantes. Encerro esta parte com uma proposta, um experimento simples: sempre que sentir FOMO diante de uma postagem, pergunte a si mesmo, com calma, o que ela de fato significa para você e para a sua vida. Por exemplo: “O que não estou vendo desse pedaço de vida?”. Aos poucos, essa pergunta tende a desmontar a crença de que “os outros estão sempre melhores”.
3. JOMO: trocar o medo pela alegria de ficar de fora.
Sei que estamos tratando de outro conceito, mas vale refletir sobre a relevância do JOMO (Joy of Missing Out, a alegria de ficar de fora) nessa problemática. Na prática, é o oposto do FOMO. Como assim? Em termos simples, JOMO não é apatia, tampouco presunção; é uma postura consciente de reconhecer que: “sim, tem algo legal acontecendo lá fora… e tudo bem, hoje escolho outra coisa”. Parto do pressuposto de que o que está “lá fora” é, de fato, interessante para você (não apenas uma suposição superficial). Aos poucos, essa postura nos possibilita valorizar momentos de descanso, foco, profundidade (em vez de mil coisas superficiais) e presença plena em poucas experiências significativas. Meu conselho é praticar uma espécie de mini ritual que pode ajudar: antes de aceitar algo só por medo de perder, pergunte: “se ninguém soubesse que eu fui, eu ainda teria vontade de ir?”. Se a resposta for “não”, talvez seja apenas o FOMO falando.
4. Decidir a partir de valores, não de comparações com o outro.
Saiba que essa narrativa é uma ficção forjada na interação social digital, uma vez que FOMO adora quando a gente vive no modo “checklist da vida dos outros”, e, como vimos, essa ficção – se aceitarmos as premissas do discutido até aqui – não passa de um exercício fútil de comparação, uma tolice. Uma forma de enfraquecê-lo é definir o que é importante para você, como quais são os valores que deseja priorizar agora? Sendo o caso, poderia, por exemplo, citar saúde, aprendizado, conexões profundas, estabilidade financeira, criatividade… Quando precisar decidir entre A e B, troque o “e se eu perder…” por “qual dessas opções conversa mais com os meus valores agora?”. Afinal de contas, também no mundo digital eu posso me tornar qualquer personagem que quiser, e o outro também pode. Portanto, o que é real? Assim, você deixa de brincar de “não quero perder nada” e passa a jogar o jogo de “quero vivenciar o que faz sentido para mim”.
5. Pequenos experimentos práticos.
Não é fácil mudar hábitos, sobretudo os mais prejudiciais, porém, afirmo, é possível, logo, em vez de virar outra fonte de culpa (“preciso parar com tudo, e de uma só vez”), dá pra tratar essa problemática como experiência de laboratório pessoal. Se estiver disposto a continuar, então, meu conselho é que durante uma semana, anote brevemente quando sentir FOMO (situação, o que viu, como se sentiu, de qual perfil foi). Em seguida, tente aplicar uma estratégia (ex.: lembrar que é recorte, ou perguntar “eu realmente quero isso?”). No fim da semana, veja em que situações o FOMO é mais forte e o que ajudou mais a diminuir a angústia.
A substancialidade do eu na esfera da cibercultura é muitas vezes ilusória. Convém notar, porém, que isso é um subproduto do advento tecnológico. Portanto, separar curiosidade de obrigação é bem diferente, uma vez que, às vezes, você gosta de ver ou até acompanhar a vida dos outros, e tudo bem, é sua escolha. Mas caberia uma pergunta simples e direta: “estou vendo porque quero ou porque sinto que tenho que ver para não ficar de fora?”
Retomando as rédeas
O ponto a notar, contudo, é que só essa consciência já tira o FOMO do modo oculto e, se você chegou até aqui, muito provavelmente já compreendeu que esse problema intervém fortemente no comportamento do sujeito moderno. Sim, estou falando de você. A meu ver, e pela minha experiência, esse conceito sempre nos acompanhou como seres conscientes (querer pertencer, não querer “errar a vida”), mas você ganha liberdade quando começa a escolher suas experiências a partir dos seus valores, e não do feed dos outros.
Falar em radicalizar é sempre difícil, porque costuma nos levar a promessas vazias. É como gritar para o mundo que vamos assumir certas responsabilidades quando, no fundo, sabemos que é passageiro e que, em breve, estaremos novamente perdidos. Em suma, a pergunta que ainda precisamos responder é se realmente queremos mais controle sobre a nossa vida e se tudo o que você leu faz sentido.
Reforço que só você pode definir quais aspectos são particularmente importantes para a sua trajetória, e é preciso ir além das palavras aqui contidas. Se, de alguma forma, este texto fez sentido e, conscientemente, você se percebe perdido nessa vida ultramoderna, hiperconectada e, por que não, niilista, subjugue o piloto automático e, de forma estruturada, vá retomando as rédeas aos poucos.
Sem parecer repetitivo, mas de forma consciente, devo mencionar mais uma vez que, embora não possa generalizar, talvez não seja prudente tentar mudar tais comportamentos da noite para o dia; quase nunca funciona (como relatei anteriormente). No ciberespaço, a ação ocorre pela mente, não pelo corpo (pela presencialidade), o que já basta para entendermos que há um conflito psicológico.
Convém, em regra, habituar-se a entender o seu próprio comportamento diante do domínio massivo de tecnologias que vão, cada vez mais, e muitas vezes de forma silenciosa – tal como a energia, a internet, o smartphone e agora a inteligência artificial – mudando nossa forma de interagir com o mundo. A política correta a seguir é analisar cuidadosamente quando essa problemática passou a tomar o controle, te deixando à mercê de um piloto automático, vivendo para olhar por uma janela (o smartphone), esquecendo-se de construir a sua história. E essa, que eu saiba, é corpo, é presencialidade, é o que compõe a vida, as experiências.
Conforme se pode concluir, jamais devemos temer a tecnologia, uma vez que ela tem qualidades para expandir nossas forças naturais, dando margem à oportunidade de, na medida do possível e do contexto, continuarmos a expandir as fronteiras do imaginário. O ponto é não se deixar absorver completamente por imagens digitais, nem se entregar a imaginários mediados tecnologicamente e, muitas vezes, por pessoas (e algoritmos) que você não conhece e que sequer fazem sentido para a sua vida.
Quais sinais você reconhece em si? O que funcionou para você?


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